quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Sem pudores




Quando tudo diz que não

Teu cheiro permanece sobre mim

Mergulho no profundo de teus olhos castanhos

Digo-te bobagens ao ouvido

Deito-te na rede

E sinto-me completamente envolvida

Por teu cheiro que me desperta o olfato

A voz que comanda o meu corpo

Com movimentos voluntários e involuntários

Vou do início ao fim de você

Quando toca com sua mão grande e pesada

Minha pele macia

Sinto desejos freneticamente estranhos

Que corrompem corpo e mente

Levando-me às profundezas do paraíso e do inferno.


Imagem do blog http://sonhosefantasias.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

No corredor do Hospital



No corredor do hospital

Um bebê emite sons finos e longos

Será que ele sente algo?

Ou é resultado da ausência da mãe?

Procura-se no quarto um,

Dois, três e, finalmente

Não, a mãe está no leito

Ao lado, o bebê chora

Em frente, a profissional da saúde

Movimenta o pé direito da criança

Para colher a impressão digital

Encosta na carteira de vacinação

E depois na três vias da declaração do bebê

Pronto

O choro cessa

Pode limpá-lo com lenço umedecido

E vesti-lo

sua bebê é uma gracinha!

Com essa declaração, o pai poderá

registrar a criança no cartório.

Essa é carteira de vacinação da bebê.

Tenha um bom dia

Despede-se da mãe


domingo, 15 de fevereiro de 2009

Encontrar alguém


Ela saiu pela rua em busca de alguém: um homem que mexe com sua estrutura somente com o olhar. Faz palpitar o coração e calar o falar. Apenas observa quem é dono de seu coração há tempos. Disfarça a cara de boba, porém ele percebe e sorri. O sorriso é largo, gostoso, corado. Cabisbaixa, tímida, não consegue encará-lo. Vira-se para ir embora e ele se aproxima. Pula do peito o coração de emoção quando ele chega perto, cada vez mais perto; diz oi, como você está? E ela, como se entrasse em transe balbucia: estou bem. Pronto percebeu a paixão. Com os olhos nela, tenta começar um diálogo, mas ela não consegue se comunicar. Permanece olhando para quem apenas queria beijar. Despede-se dela com dois beijos no rosto e "a gente se vê por aí”. Ela diz sim, feito tonta. Bem-vinda ao mundo real.



"Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas"
Voltaire

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Escuridão




Trancafiada em um cômodo escuro

Corre de um lado a outro em busca de luz

Nada encontra

Isola-se em um canto

Lágrimas frias escorrem pelo seu corpo

Desesperadamente,

Balbucia palavras enraivecidas

Busca explicações

A Ausência de resposta a persegue

Sem forças

O corpo se desfaz

num amontoado de questionamentos com razão

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Sonhei

De vez em quando é bom sonhar.

Esta noite sonhei que você estava ao

meu lado dando-me carinho e atenção.

Ouvi palavras tão lindas,

que me levaram as nuvens.

sem que ao menos me tocasse.

O rosto colado ao meu

me permitia sentir o teu cheiro e,

arriscar tocar seus lábios,

ainda que de leve.

Cada vez mais próxima e

não resistindo a você,

o beijei com vontade.

Não demorou muito

para nossos lábios se unirem

como se fossem um só.

Acariciei seu pálido e suado rosto,

tornando-o por toda noite só meu.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Aula de português


[...] Foram oito tardes de muita dedicação ao estudo. Ricardo tinha um objetivo a atingir: despertar atenção de Daiana. Em virtude disso, tratou de prestar atenção nas lições de Marcelo, seu amigo explicador, e raciocinar. Logo, aprendeu direitinho o que queria.


− Certo de que saberia tudo da aula de português, pensou, hoje vou arrasar!


Bastava a professora chamá-lo, retrucou. Cinquenta minutos passados, bateu a impaciência. Não acredito que ela esqueceu de mim. No quadro-negro, outro garoto tinha acabado de fazer os exercícios que Ana pedira.


− Parabéns, a professora cumprimentou pelos acertos.

Não suportando aguardar ainda mais, Ricardo ergueu a mão.


− Apenas para saber... − Ricardo esclareceu o motivo da interrupção – “menina” é núcleo do sujeito?


− Exatamente − confirmou Ana.


− Eu sabia! − exclamou o garoto.


Algumas caras de espanto, outras de gozação se viraram para ele. Imediatamente, Ricardo piscou o olho direito para quem lhe interessava. Parece que Daiana, inspiração para tamanho desempenho, tinha gostado da exibição.


Carlos não gostando da situação, intrometeu-se dizendo a professora.


− A gente nem aprendeu núcleo do sujeito, numa queixa.

Bola na trave. Era o que Ricardo precisava para dar continuidade ao show.


− O núcleo do sujeito é parte mais importante de todas do sujeito. É a palavra central. Nessa frase é “menina”.

Virou e olhou para Daiana.


A classe ficou perplexa. Até mesmo a professora se surpreendeu. Ricardo soltou mais um exemplo. Piiiii...era o sinal. Hora do recreio, disse Ana. Após o intervalo continuaremos.


− Muito bem, Ricardo! − elogiou a professora.


O rapaz foi guardar o material na carteira. Antes parou ao lado de Daiana. Era primeira vez que fazia isso. Não sabia como falar. Respirou fundo.


− você gostaria de ir ao cinema comigo hoje à tarde − convidou.


− Vou falar com minha mãe − respondeu sorrindo. − Me telefona...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Consternada elucubração


Parecia ser apenas mais dia; comum a todos os outros, eu diria. Chuvoso ou ensolarado, que diferença faz. Se ao menos a chuva invadisse o meu eu, lavando tudo de ruim que há por dentro. Ou o sol iluminasse meus pensamentos, trazendo a alegria de um sorriso de bebê. Que nada, por dentro de mim nada existia. É como se a natureza não pudesse interferir. Em meio a essa tristeza rudimentar, os pensamentos foram rolando escala abaixo e, grudado neles, uma angustia, que sufocava tanto que, por vezes, quis gritar; ultrapassando o nível da força, quis chorar; também não consegui. Busquei paliativos coerentes, mas nada.
Sigo assim, fragmentada em várias partículas afastadas e contíguas ao mesmo tempo.
E em uma tentativa de me entender ou minimizar conflitos me perco dentro de mim mesma. Talvez não existam respostas para meus questionamentos, eu sei.
Porém, como todo indivíduo, prossigo a fim de tornar coerente minha incompletude existencial.